Paro a moto no cruzamento quando a vejo ao lado, os cabelos querendo se soltar do coque e a parte esquerda da face já avermelhada da vida na cidade e de ficar dentro de um carro para lá e cá procurando resolver o que não se resolve, algo maior do que parecia ser dentro daquele rosto pequeno e agitado; ela é suor e chão e tão menina quanto as que guardam os segredos mais densos enrolados nos caracóis. Naturalmente, não me nota por perto ou finge não me ver enquanto fantasia suspiros e tremores na tarde quente. Traga o cigarro devagar e aquele cheiro falso de menta a invadir o meu peito no tempo em que uma canção dos Beatles sai da boca de Caetano até que eu não consigo mais respirar e ela toma todo o meu mundo só com o cair de ombro, um ombrinho branco e preguiçoso de quem quer deitar na rede e ser a musa dos loucos pelos sete cantos em que passar antes mesmo de virar mulher, que em qualquer outro dia da vida eu passaria reto a uma cara bonita e no entanto ela ferve o asfalto sem dó do meu coração, ainda que tem uns olhos que não se fazem entender para onde vão, daqueles nos quais você não vê nada e de quem chora por ninguém, que nem na canção.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Qualquer alucinação para espantar o calor da sala
Eu falei para deus que eu não queria ter vindo parar aqui e que outra dessas noites de jantares pró convívio social que não me agradam em nada sequer na comida não conseguiria levar a diante, mas vim porque sempre me mandam comparecer a essas danças de mesas, essas malditas danças de mesas. Fico calada durante a ceia e não haveria nada que me descalasse a boca senão a menina do canto a comer um prato recheado com seus próprios cabelos. A menina quase careca já, no mundo em que se procura pelo Procon por conta do caso de um pequeno fio de cabelo incrustado em uma pizza de anchovas devora um spaghetti de mechas longas e negras. Sem tornar aos lados, postura ereta, cintura fina de dieta de fios e olhos salientes voltados ao prato dourado, o mesmo prato dourado de sempre e ela ainda permanece pura na certeza da tarefa que realiza e mesmo em sua beleza e é penetrantemente belo observar a pequena comedora de cabelos, princesa subversiva dos banquetes: a cena é absoluta. Eu já me sinto preenchida por suas madeixas e sonho alto queimando as mãos aos penetrar na mesma casa em dois momentos diferentes, seus moradores em transformação e minha espinha gelada pelas línguas que me tocaram as costas em um verão e no outro inverno, o quarto e a sala que eram abrigos da solidão e da estupidez do mundo, tudo tão puro e tão natural. A casa leva o mesmo nome mas um momento não se parece em nada ao segundo quando percebo que todos mudaram seus rostos e que sinto repulsa ao sofá marrom por também me causar estranheza e apenas eu sou ligeiramente a mesma, ligeiramente e porque ainda estou presa em uma cidade sem relógios. Voo até o último homem do último quarto e quando volto a mim o prato da moça está por acabar e sei que irei questioná-la não a opção mas sim o que irá fazer quando todos os seus cabelos já tiverem sido banqueteados e sei que ela me dirá que quando esse momento chegar, irá comer a cara.
domingo, 31 de julho de 2011
Outra noite no baile
Bom mesmo é permanecer nesse palco suspenso no qual não conto as horas nem as viradas do tempo, e não conto os dias e o que há para se fazer e o que não se deve fazer e nem mesmo conto o que quero fazer, não conto amores antigos, castigos, medos e descrenças e doenças e tampouco conto os grãos de arroz do meu almoço ou os vincos da parede vermelha, não conto quantas vezes vou para a frente do espelho nem quantos homens me derretem a camisa com os olhos e também não conto problema, dinheiro, dilema e não conto nem poema, não conto os dias sem gozo e nem meus pares de sapatos, não conto vantagem nem conto ponto nem conto caso nem conto contigo nem conto do vigário nem conto de fadas, não conto palavras, números e placas e luzes alucinógenas e outras drogas, nem cigarras ou fileiras de formigas e não conto pingos de chuva nem amendoim dentro do saco, não conto um só demônio e santo também não conto e nem mesmo conto como pessoa por que aqui nada se conta e apenas sei dançar.
domingo, 17 de julho de 2011
Aglutinação
Pela tela do cinema vejo misturar-se a seu rosto o meu, as palavras sob nossas cabeças criando novas estruturas e a figura formada a imperar autônoma, se quem fomos já não importa.
sábado, 9 de julho de 2011
O gato na sacada
Ele olha para o infinito, mas em meus sonhos me olhava e me contava poemas em intermináveis cartas que atravessaram os anos. Por ver assim o gato percebo que há muito as cartas se foram e ele está velho como eu envelheci e como Bruna teve filhos e Rafael se casou. Outros tempos, nalgum ponto do que fui eu ele esteve a me observar da sacada e então a beijar-me os joelhos e pedir por abrigo no avesso de minha saia, e sou eu a filha de Klaus Kinski apaixonada por um felino, e como ela o guardo em segredo porque pessoa alguma haveria de entender meu amor por um gato e tampouco qualquer ser da espécie aprovaria o romance. Se parece na tarde de hoje apenas com um animal manso numa antiga sacada de uma rua de São Paulo desfilando imóvel sua sutileza, o guardião do apartamento, dos discos e do piano e aquele cheiro de pão e erva a invadir o mundo, ele ali posando para minhas recordações, já tão alvo e tão denso. Os gato têm ainda alguma carência e o roçar e postar de corpos como cinturões felpudos nos colos de suas donas, nem que tenham todos os mistérios do cosmo guardados em caixas prateadas são sinceros e tolos sobre o ventre de uma mulher. Penso em como me fiz querer o animal que é poeta mas se afirma turista e percebo que se trata de uma dessas minhas histórias sem direções e que seria meu sentimento completamente criminoso não fosse sonho (e não estivesse ele agora contando os azulejos da sala e salpicando frases n'outras línguas). Do vidro de uma loja noto minhas sobrancelhas malfeitas, é certo que tenho deixado meus caprichos de lado e viajado o mundo enquanto provo banquetes e fervo a alma por toda minha necessidade guardada há tanto, havia então de chegar à velha rua na cidade de São Paulo para vê-lo pintar em meu coração seus verbetes graciosos, tão quentes e graciosos. Parentes não moram distante daqui e jamais aceitariam um romance que não existe nem nunca existiu senão em mim e em seus pêlos, na língua cancioneira e no segredo de toda uma história, hay que amar en secreto, hei de me entreter com qualquer coisa por esses dias como o tenho feito e terei de ver maldade onde não há, nas palavras de Cecília.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Confusa linha lateral
Vomito em meu próprio colo. Sinto a ânsia da sala cheia, o medo do desconhecido, a vida dentro da vida me bate à barriga e me questiono por qual modo uma se encaixa noutra. Uma vida em outra vida. Alguém me pergunta da viagem ao Uruguai e fico preguiçosa em contar como a arquitetura das cidades havia me impressionado e quão bonitas eram as pequenas faces sorridentes nas praças, então permaneço calada e enojada do cheiro do ar. Por sorte acordo cedo e mal tenho tempo de completar a noite. Eu que fico tonta ao balançar das ondas vou indo de mãos ao ventre e tenho a forte sensação de que sonho e realidade constituem uma só experiência.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Durante a madrugada
Te agarro o braço e seguimos pela beira da pista, sem nenhuma luz é preciso te segurar firme. Eu sei de seus medos e é por isso que o aperto tão forte enquanto procuro a cidade mais próxima. Todas as outras vezes foram semelhantes e em todas elas consegui encontrar abrigo para passarmos a noite até que amanhecia e engoli o sol daqueles lugares para te afastar de qualquer perigo e ao fim do dia descansarmos em casa. Hoje a noite está mais escura e meus sapatos me machucam os pés e também tenho muita fome. Não importa o que me aconteça é preciso te tirar daqui. Não temer a estrada me deixa preguiçosa em avançar porque sei que poderia me deitar aqui mesmo e dormir até o amanhecer; o faço por você que é quem precisa de abrigo, de concretude, de um acenar de mãos qualquer. Meus pulmões já estão limpos das horas sem maços então sem dúvida precisamos chegar a algum lugar e dormir o quanto antes para ver se o mal estar se vai. Trocar os ares é necessário para que sensações presentes tomem outras formas e distorção gera uma curiosidade que me dá certa euforia. Mas não se preocupe, ficarei para te segurar e minha missão será o proteger das sombras todas as vezes em que aparecerem, por que te amo e por que sei que sempre há uma cidade vizinha da estrada.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Sobre a conversa com um velho amigo
Apática. É outro inverno e certamente o dia mais frio que tivemos no ano. Dona Nêca limpa a casa que agora tem sua metade organizada e a outra parte cheia de pó e ácaros, logo os ácaros que me matam pouco a pouco. Já não tenho o ânimo de antes e me sinto doente, a festa de ontem me pesa pelo corpo, me fura a garganta e tranca as narinas; sem festa morro de qualquer forma e então me sinto prática ao ainda considerar propostas de madrugadas animadas. Gustavo dorme feito pedra, busco um copo de água e vejo desconhecidos pela casa. Levo um antigo amigo ao hospital. Estranho, a princípio, a paisagem: o céu acinzentado, o vento forte e o frio da manhã me fazem pensar que nunca estive aqui antes, ainda que conheça todos os caminhos que levam ao triste edifício. Entro, passo por corredores e escadas e chego a sala cinco do segundo andar como me foi orientado fazer. Uma enfermeira sorridente acompanha meu amigo e insiste chamá-lo por outro nome. Tenho vontade de lhe sussurrar seu nome verdadeiro a fim de evitar qualquer constrangimento por parte de meu companheiro mas minha voz não sai e não consigo sentir qualquer cheiro. Deve cheirar a hospital, esse lugar. Meu corpo está gélido e me encontro impaciente pela dor de cabeça que me aperta o pensamento, então me chamam de volta à sala cinco e vejo que meu amigo está deitado em uma maca. Sento-me ao seu lado por algum tempo até que ele acorda com olhos vermelhos e balbucia histórias sobre a universidade, os políticos e um verão que não recordo qual é, e fala algo relacionado a estar o ser humano preso em suas próprias convenções e assim tornarmo-nos todos escravos de nós, uns dos outros e de nós mesmos, e vivermos clamando a liberdade enquanto escondemos nossos rostos de sua certeza e assim a liberdade nunca é uma certeza. É o que ele me diz e eu não fico mais surpresa pelos rumos que minha manhã toma pois já sei de seu propósito. Deixo o hospital como se deixasse a festa de ontem, simpática e embriagada, para um almoço num pátio esfumaçado e falamos de amor e também de fumaça. Chego em casa com os sapatos molhados. Deve chover, então, e estou dilareçada pela chuva e me alivia estar exausta e ter os olhos ardendo por que o sono há de vir melhor nessas condições, mesmo o quarto estando revirado e ainda cheio de pó. Não encontro dona Nêca mas juro tê-la visto hoje mesmo, provavelmente fora embora devido a algum imprevisto, talvez algum amigo tenha lhe telefonado e pedido companhia até um hospital esverdeado, mas ela esteve aqui pois a cama ainda está quente e só havia de ser ela a cuidar de mim. Pena não ter tido tempo de limpar o pó, eu já começo a me sentir mal.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Ainda de manhã
Durmo profundamente quando o telefone toca uma unica vez, mas suficiente para me despertar as idéias. Fato é que sei de minhas idéias estarem também despertas durante o sono e por essa certeza já não sei se realmente acordo. Sei de o telefone tocar e de uma cachoeira de idéias adentrar-me o cérebro, ou está ela saindo de mim. A diferença passa a me importar muito, gostaria de distinguir com clareza quando as idéias vem de fora e quando são genuinamente minhas, e se alguma vez já foram genuinamente minhas e se algum de nós tem idéias genuínas. Talvez as percepções externas gerem as idéias de dentro. É isso e sinto alívio em saber que é isso. Pego um papel e faço anotações por sentir que serão importantes, noutra hora. Levo mais de uma hora procurando a origem dos meus pensamentos e tudo isso pelo maldito toque de telefone que penetra no campo de idéias despertas de quando durmo. Sinto-me pregada; partes se distorcem e outras se esclarecem e não há nada o que fazer quando algo lhe desperta o sono. Ou é isso, ou é uma peça dos sonhos.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Sábios mosquitos
Agora a chuva me atrapalha em trabalhar. Deveria acontecer o contrário, como sempre o é, e eu deveria devorar livros e fazer anotações ao tempo em que os pingos caem, mas há trovões lá fora e, se troveja, eu bocejo. Tenho ao lado a bíblia dos céticos, meu fumo e uma caneca vazia. Os mosquitos abrigam-se do frio em meus pés, que já estão ardentes e vermelhos das mordidas. Sou agora um mosquito. Tão fácil ser um pequeno arteiro, adentrar a casa alheia, zumbir no centro do cérebro de alguém e furar-lhe os pés, avançar ao último cômodo e encontrar uma moça desnuda roçando-se em lençóis macios, recostar sobre seu corpo quente, tomar-se inteiro de fina pele feminina, sugar seu sangue e levantar vôo. Se morri, morri e é só; morri uma morte bonita, de suave tapa de mulher em êxtase.
Alina Reyes
Acordo e já é uma da tarde. Dormi lendo o diário de Reyes, essa é minha última lembrança. Não sei ao certo que horas eram, tampouco recordo a atividade de antes do livro. Mas acordo e já é uma da tarde, o que me permite arriscar que dormi por no mínimo dez horas. Sem interrupção. Tenho os cabelos curtos e quase que totalmente louros. Estou bonita e sou o centro das atenções da festa, como sempre o sou aqui. Uma moça está em uma roda de instrumentistas, fala alto e tem os cabelos desgrenhados. Meus olhos se tomam de injúria. Parece que fiz amor com um desconhecido. Mas não deveria ser desconhecido, por que fiz amor e sei que fiz amor porque sinto isso por todo o meu corpo e também em minha alma, pelo algo de mais verdadeiro que trago em mim. Ouço suas palavras sujas e febris e me indago se me ama. Agora, sei que não é um desconhecido. Meus braços e pernas doem e meus cabelos permanecem intactos. Olho para meu reflexo: estou realmente bonita e de certo melhor do que estive com o último corte. As crises de insônia vem cedendo espaço a longas e profundas noites de sono, muito mais longas do que eu gostaria, de fato. Preciso ir a farmácia, já não tenho medicamento suficiente na maleta verde; é necessário respirar. As alergias têm me tomado o ânimo, pode-se dever a isso o sono alterado, mas a verdade é que transferi as preocupações insônes para dentro de meus sonhos. Ainda tenho o projeto e é preciso correr contra o tempo para que o tempo perdido não me volte a tomar o sono. Ao mesmo tempo, quanto mais sono tenho, mais tempo perco. E esse tempo perdido virá, mais tarde, a tomar-me o sono. Amigos me cumprimentam e indagam sobre o projeto, do qual não consigo me recordar e faço todo o esforço que posso para extrair de dentro qualquer informação que satisfaça os rostos já enaltecidos de todos eles. Os músicos se aproximam de nossa roda. Sei que hão de terminar a noite ali, ao lado dos eloquentes esquecidos, do trágico da leveza, dos heróicos vilões dos livros, e sei de nos sentirmos assim porque me ardem os olhos. Não me recordo do rosto do moço mas já o amo por inteiro e estará ele ali, em algum lugar da festa que deve ser minha. Definitivamente, conheço-o. Adormeço na sacada mas a música não me atrapalha o sono, e nada mais atrapalha o sono além de fios dourados batendo em minha boca.
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