terça-feira, 7 de junho de 2011

Alina Reyes

Acordo e já é uma da tarde. Dormi lendo o diário de Reyes, essa é minha última lembrança. Não sei ao certo que horas eram, tampouco recordo a atividade de antes do livro. Mas acordo e já é uma da tarde, o que me permite arriscar que dormi por no mínimo dez horas. Sem interrupção. Tenho os cabelos curtos e quase que totalmente louros. Estou bonita e sou o centro das atenções da festa, como sempre o sou aqui. Uma moça está em uma roda de instrumentistas, fala alto e tem os cabelos desgrenhados. Meus olhos se tomam de injúria. Parece que fiz amor com um desconhecido. Mas não deveria ser desconhecido, por que fiz amor e sei que fiz amor porque sinto isso por todo o meu corpo e também em minha alma, pelo algo de mais verdadeiro que trago em mim. Ouço suas palavras sujas e febris e me indago se me ama. Agora, sei que não é um desconhecido. Meus braços e pernas doem e meus cabelos permanecem intactos. Olho para meu reflexo: estou realmente bonita e de certo melhor do que estive com o último corte. As crises de insônia vem cedendo espaço a longas e profundas noites de sono, muito mais longas do que eu gostaria, de fato. Preciso ir a farmácia, já não tenho medicamento suficiente na maleta verde; é necessário respirar. As alergias têm me tomado o ânimo, pode-se dever a isso o sono alterado, mas a verdade é que transferi as preocupações insônes para dentro de meus sonhos. Ainda tenho o projeto e é preciso correr contra o tempo para que o tempo perdido não me volte a tomar o sono. Ao mesmo tempo, quanto mais sono tenho, mais tempo perco. E esse tempo perdido virá, mais tarde, a tomar-me o sono. Amigos me cumprimentam e indagam sobre o projeto, do qual não consigo me recordar e faço todo o esforço que posso para extrair de dentro qualquer informação que satisfaça os rostos já enaltecidos de todos eles. Os músicos se aproximam de nossa roda. Sei que hão de terminar a noite ali, ao lado dos eloquentes esquecidos, do trágico da leveza, dos heróicos vilões dos livros, e sei de nos sentirmos assim porque me ardem os olhos. Não me recordo do rosto do moço mas já o amo por inteiro e estará ele ali, em algum lugar da festa que deve ser minha. Definitivamente, conheço-o. Adormeço na sacada mas a música não me atrapalha o sono, e nada mais atrapalha o sono além de fios dourados batendo em minha boca.

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