Eu falei para deus que eu não queria ter vindo parar aqui e que outra dessas noites de jantares pró convívio social que não me agradam em nada sequer na comida não conseguiria levar a diante, mas vim porque sempre me mandam comparecer a essas danças de mesas, essas malditas danças de mesas. Fico calada durante a ceia e não haveria nada que me descalasse a boca senão a menina do canto a comer um prato recheado com seus próprios cabelos. A menina quase careca já, no mundo em que se procura pelo Procon por conta do caso de um pequeno fio de cabelo incrustado em uma pizza de anchovas devora um spaghetti de mechas longas e negras. Sem tornar aos lados, postura ereta, cintura fina de dieta de fios e olhos salientes voltados ao prato dourado, o mesmo prato dourado de sempre e ela ainda permanece pura na certeza da tarefa que realiza e mesmo em sua beleza e é penetrantemente belo observar a pequena comedora de cabelos, princesa subversiva dos banquetes: a cena é absoluta. Eu já me sinto preenchida por suas madeixas e sonho alto queimando as mãos aos penetrar na mesma casa em dois momentos diferentes, seus moradores em transformação e minha espinha gelada pelas línguas que me tocaram as costas em um verão e no outro inverno, o quarto e a sala que eram abrigos da solidão e da estupidez do mundo, tudo tão puro e tão natural. A casa leva o mesmo nome mas um momento não se parece em nada ao segundo quando percebo que todos mudaram seus rostos e que sinto repulsa ao sofá marrom por também me causar estranheza e apenas eu sou ligeiramente a mesma, ligeiramente e porque ainda estou presa em uma cidade sem relógios. Voo até o último homem do último quarto e quando volto a mim o prato da moça está por acabar e sei que irei questioná-la não a opção mas sim o que irá fazer quando todos os seus cabelos já tiverem sido banqueteados e sei que ela me dirá que quando esse momento chegar, irá comer a cara.