Paro a moto no cruzamento quando a vejo ao lado, os cabelos querendo se soltar do coque e a parte esquerda da face já avermelhada da vida na cidade e de ficar dentro de um carro para lá e cá procurando resolver o que não se resolve, algo maior do que parecia ser dentro daquele rosto pequeno e agitado; ela é suor e chão e tão menina quanto as que guardam os segredos mais densos enrolados nos caracóis. Naturalmente, não me nota por perto ou finge não me ver enquanto fantasia suspiros e tremores na tarde quente. Traga o cigarro devagar e aquele cheiro falso de menta a invadir o meu peito no tempo em que uma canção dos Beatles sai da boca de Caetano até que eu não consigo mais respirar e ela toma todo o meu mundo só com o cair de ombro, um ombrinho branco e preguiçoso de quem quer deitar na rede e ser a musa dos loucos pelos sete cantos em que passar antes mesmo de virar mulher, que em qualquer outro dia da vida eu passaria reto a uma cara bonita e no entanto ela ferve o asfalto sem dó do meu coração, ainda que tem uns olhos que não se fazem entender para onde vão, daqueles nos quais você não vê nada e de quem chora por ninguém, que nem na canção.