Ele olha para o infinito, mas em meus sonhos me olhava e me contava poemas em intermináveis cartas que atravessaram os anos. Por ver assim o gato percebo que há muito as cartas se foram e ele está velho como eu envelheci e como Bruna teve filhos e Rafael se casou. Outros tempos, nalgum ponto do que fui eu ele esteve a me observar da sacada e então a beijar-me os joelhos e pedir por abrigo no avesso de minha saia, e sou eu a filha de Klaus Kinski apaixonada por um felino, e como ela o guardo em segredo porque pessoa alguma haveria de entender meu amor por um gato e tampouco qualquer ser da espécie aprovaria o romance. Se parece na tarde de hoje apenas com um animal manso numa antiga sacada de uma rua de São Paulo desfilando imóvel sua sutileza, o guardião do apartamento, dos discos e do piano e aquele cheiro de pão e erva a invadir o mundo, ele ali posando para minhas recordações, já tão alvo e tão denso. Os gato têm ainda alguma carência e o roçar e postar de corpos como cinturões felpudos nos colos de suas donas, nem que tenham todos os mistérios do cosmo guardados em caixas prateadas são sinceros e tolos sobre o ventre de uma mulher. Penso em como me fiz querer o animal que é poeta mas se afirma turista e percebo que se trata de uma dessas minhas histórias sem direções e que seria meu sentimento completamente criminoso não fosse sonho (e não estivesse ele agora contando os azulejos da sala e salpicando frases n'outras línguas). Do vidro de uma loja noto minhas sobrancelhas malfeitas, é certo que tenho deixado meus caprichos de lado e viajado o mundo enquanto provo banquetes e fervo a alma por toda minha necessidade guardada há tanto, havia então de chegar à velha rua na cidade de São Paulo para vê-lo pintar em meu coração seus verbetes graciosos, tão quentes e graciosos. Parentes não moram distante daqui e jamais aceitariam um romance que não existe nem nunca existiu senão em mim e em seus pêlos, na língua cancioneira e no segredo de toda uma história, hay que amar en secreto, hei de me entreter com qualquer coisa por esses dias como o tenho feito e terei de ver maldade onde não há, nas palavras de Cecília.
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