quarta-feira, 6 de junho de 2012

Thiago Barbalho Vai Para o Fundo do Poço

Comecei a ler o livro do Thiago que Luciana me emprestou porque eu trabalhava enquanto o lançamento acontecia e não pude comprar o meu, daí que agora eu preciso ter o meu livro do Thiago, uma pessoa dessas palpáveis (ainda que não me seja tanto) que tem a sua imagem de algumas coisas verbalizada e impressa em grande escala, que sonho o meu. Melhor pensar/dizer é que ele tem as suas palavras de algumas coisas saltando em imagens impressas em grande escala cerebral ou sei lá mais o quê é que se deve pensar/dizer dos livros dos outros - dos livros, só, que eu mesma não tenho sequer um livro, e vou ter o quê? Que sonho o meu, que posso muito bem terminar de ler e devolver para Luciana. Não vou ficar com o livro de uma amiga que eu sei de depois reclamarem até o fim da amizade sobre essa pequena peça que pregamos quase sem querer, mas querer o meu próprio exemplar dele é só porque meu filho, e a única quase certeza já nesse ponto é que um filho existe na ideia e agora nas palavras, e se existe assim, existe e existirá quem sabe em sua forma física e gritante e descobridora do mundo. Meu filho há de querer ler o livro de um amigo da mãe ou não, mas topado o desafio irá sair criando buracos pelas paredes e eu gosto de filhos e gosto de buracos. Gosto de dar ideias e de gente que dá ideias e escreve ideias e desenha ideias esburacadas pelas paredes do apartamento recém mobiliado. Da casa, por ser possível imaginar as coisas da maneira que eu quiser. Isso sim, isso sempre é possível e é o que salva e o que condena as pessoas. Sinto vontade de gravar o volume assustador de pensamentos que me protegem da chuva, os olhos negros de estar essa mulher que se maquia para a noite e de repente a noite vira dia e está chovendo e eu ando pensando muito, molhada e com essas manias esquisitas. Gritar no telefone não é das ações mais distintas do homem. Até parece que hoje em dia eu tenho de me desapontar com tudo e com todos, e é quando me escorrego na conclusão de que quem está desapontado, desapontado ponto, não poderia mesmo achar graça nas adversidades banais da vida e tem a obrigação de acabar esmigalhado dentro de um fio de telefone: gralhas tristes é o que somos. Magoar a si e aos outros também não deve enobrecer - aí me confundo. Mas não sou nobre e nem nada, nem pobre e nem rica e nem feliz e nem triste, tente alguém um dia me dizer então quem sou; grandes chances de acabar em bofetada. Nem um ano ainda, alguns meses na cidade chuvosa, a geladeira cheia, a mesa vazia e outros duzentos complexos que psicologia nenhuma irá me explicar, que eu ontem mesmo deixei a terapia. "Trabalhar é um santo remédio" é das maiores mentiras dos seres que sentem, remédio para mim tem bula e nesse ponto me pareço com a mãe da personagem do livro, no gosto medicinal e no desgosto às anomalias, tirando que eu gosto tanto delas que vivo anomálica. Acabo de inventar uma palavra. Inventar um livro é outra história, difícil tarefa a de criar um amontoado de coisas suas quando se sabe de nada ou quase nada ser seu. Com o filho eu dou um jeito, já está projetado e de projetos e buracos em paredes pode se formar um futuro arquiteto, "Parabéns! Nós te amamos muito!", amamos muito, amamos!, muito!, quem é que somos nós? A chuva costuma ser ensurdecedora de dentro para fora, cabeça surda e eco brando até meus olhos atravessarem a paleta do arco-íris, não sei porque eu tentei endireitar meus olhos. Não fossem pelos médicos me dizendo que agora eu enxergo bem, a vista segue turva. Toca meu telefone: fui demitida. Como assim? Assim assado, porque é preciso ser e eu sou, sei do nome que meus pais me deram, nome-sobrenome-casa-quintal-piscina-cesta-de-basquete-Primaveras-mesa-de-madeira-biblioteca; será que um dia tenho uma biblioteca no quintal? Gostei muito também de o livro ter o formato de um Moleskine. É cool, como costumam dizer nesse ano de dois mil e doze.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Muito antes do sol

Sei de o som me deixar fissurada no passado antes mesmo de ser possível tomar mais um trago, eu que nem mesmo virei três drinques. Coquetéis, uma das minhas coisas de outros tempos, de festas e as velhas casas de amigos que me visitaram de maneira tão frequente de modo que hoje em dia eu mal percebo o que se passou sem a devida intenção. Era só para ser um momento meu e menos complicado do que outros momentos, mas o velho mocinho-bandido saiu tão livre quanto baleado e é impossível não sentir, ainda hoje, ainda mais hoje. Como se fosse necessário que entre a degradação do amor todos desempenhassem todos os papéis, e tantas coisas da família e dos próximos, os Mariatti que sofreram a perda da menina quando a gente era ainda bem criança e bem insensível. Uma hora é notável que a cidade lhe percebe e seu ego e o seu amor lhe perseguem, seu ódio sempre à frente, seus demônios sempre dentro de você.