domingo, 31 de julho de 2011

Outra noite no baile

Bom mesmo é permanecer nesse palco suspenso no qual não conto as horas nem as viradas do tempo, e não conto os dias e o que há para se fazer e o que não se deve fazer e nem mesmo conto o que quero fazer, não conto amores antigos, castigos, medos e descrenças e doenças e tampouco conto os grãos de arroz do meu almoço ou os vincos da parede vermelha, não conto quantas vezes vou para a frente do espelho nem quantos homens me derretem a camisa com os olhos e também não conto problema, dinheiro, dilema e não conto nem poema, não conto os dias sem gozo e nem meus pares de sapatos, não conto vantagem nem conto ponto nem conto caso nem conto contigo nem conto do vigário nem conto de fadas, não conto palavras, números e placas e luzes alucinógenas e outras drogas, nem cigarras ou fileiras de formigas e não conto pingos de chuva nem amendoim dentro do saco, não conto um só demônio e santo também não conto e nem mesmo conto como pessoa por que aqui nada se conta e apenas sei dançar.

domingo, 17 de julho de 2011

Aglutinação

Pela tela do cinema vejo misturar-se a seu rosto o meu, as palavras sob nossas cabeças criando novas estruturas e a figura formada a imperar autônoma, se quem fomos já não importa.

sábado, 9 de julho de 2011

O gato na sacada

Ele olha para o infinito, mas em meus sonhos me olhava e me contava poemas em intermináveis cartas que atravessaram os anos. Por ver assim o gato percebo que há muito as cartas se foram e ele está velho como eu envelheci e como Bruna teve filhos e Rafael se casou. Outros tempos, nalgum ponto do que fui eu ele esteve a me observar da sacada e então a beijar-me os joelhos e pedir por abrigo no avesso de minha saia, e sou eu a filha de Klaus Kinski apaixonada por um felino, e como ela o guardo em segredo porque pessoa alguma haveria de entender meu amor por um gato e tampouco qualquer ser da espécie aprovaria o romance. Se parece na tarde de hoje apenas com um animal manso numa antiga sacada de uma rua de São Paulo desfilando imóvel sua sutileza, o guardião do apartamento, dos discos e do piano e aquele cheiro de pão e erva a invadir o mundo, ele ali posando para minhas recordações, já tão alvo e tão denso. Os gato têm ainda alguma carência e o roçar e postar de corpos como cinturões felpudos nos colos de suas donas, nem que tenham todos os mistérios do cosmo guardados em caixas prateadas são sinceros e tolos sobre o ventre de uma mulher. Penso em como me fiz querer o animal que é poeta mas se afirma turista e percebo que se trata de uma dessas minhas histórias sem direções e que seria meu sentimento completamente criminoso não fosse sonho (e não estivesse ele agora contando os azulejos da sala e salpicando frases n'outras línguas). Do vidro de uma loja noto minhas sobrancelhas malfeitas, é certo que tenho deixado meus caprichos de lado e viajado o mundo enquanto provo banquetes e fervo a alma por toda minha necessidade guardada há tanto, havia então de chegar à velha rua na cidade de São Paulo para vê-lo pintar em meu coração seus verbetes graciosos, tão quentes e graciosos. Parentes não moram distante daqui e jamais aceitariam um romance que não existe nem nunca existiu senão em mim e em seus pêlos, na língua cancioneira e no segredo de toda uma história, hay que amar en secreto, hei de me entreter com qualquer coisa por esses dias como o tenho feito e terei de ver maldade onde não há, nas palavras de Cecília.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Confusa linha lateral

Vomito em meu próprio colo. Sinto a ânsia da sala cheia, o medo do desconhecido, a vida dentro da vida me bate à barriga e me questiono por qual modo uma se encaixa noutra. Uma vida em outra vida. Alguém me pergunta da viagem ao Uruguai e fico preguiçosa em contar como a arquitetura das cidades havia me impressionado e quão bonitas eram as pequenas faces sorridentes nas praças, então permaneço calada e enojada do cheiro do ar. Por sorte acordo cedo e mal tenho tempo de completar a noite. Eu que fico tonta ao balançar das ondas vou indo de mãos ao ventre e tenho a forte sensação de que sonho e realidade constituem uma só experiência.