terça-feira, 21 de junho de 2011

Durante a madrugada

Te agarro o braço e seguimos pela beira da pista, sem nenhuma luz é preciso te segurar firme. Eu sei de seus medos e é por isso que o aperto tão forte enquanto procuro a cidade mais próxima. Todas as outras vezes foram semelhantes e em todas elas consegui encontrar abrigo para passarmos a noite até que amanhecia e engoli o sol daqueles lugares para te afastar de qualquer perigo e ao fim do dia descansarmos em casa. Hoje a noite está mais escura e meus sapatos me machucam os pés e também tenho muita fome. Não importa o que me aconteça é preciso te tirar daqui. Não temer a estrada me deixa preguiçosa em avançar porque sei que poderia me deitar aqui mesmo e dormir até o amanhecer; o faço por você que é quem precisa de abrigo, de concretude, de um acenar de mãos qualquer. Meus pulmões já estão limpos das horas sem maços então sem dúvida precisamos chegar a algum lugar e dormir o quanto antes para ver se o mal estar se vai. Trocar os ares é necessário para que sensações presentes tomem outras formas e distorção gera uma curiosidade que me dá certa euforia. Mas não se preocupe, ficarei para te segurar e minha missão será o proteger das sombras todas as vezes em que aparecerem, por que te amo e por que sei que sempre há uma cidade vizinha da estrada.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sobre a conversa com um velho amigo

Apática. É outro inverno e certamente o dia mais frio que tivemos no ano. Dona Nêca limpa a casa que agora tem sua metade organizada e a outra parte cheia de pó e ácaros, logo os ácaros que me matam pouco a pouco. Já não tenho o ânimo de antes e me sinto doente, a festa de ontem me pesa pelo corpo, me fura a garganta e tranca as narinas; sem festa morro de qualquer forma e então me sinto prática ao ainda considerar propostas de madrugadas animadas. Gustavo dorme feito pedra, busco um copo de água e vejo desconhecidos pela casa. Levo um antigo amigo ao hospital. Estranho, a princípio, a paisagem: o céu acinzentado, o vento forte e o frio da manhã me fazem pensar que nunca estive aqui antes, ainda que conheça todos os caminhos que levam ao triste edifício. Entro, passo por corredores e escadas e chego a sala cinco do segundo andar como me foi orientado fazer. Uma enfermeira sorridente acompanha meu amigo e insiste chamá-lo por outro nome. Tenho vontade de lhe sussurrar seu nome verdadeiro a fim de evitar qualquer constrangimento por parte de meu companheiro mas minha voz não sai e não consigo sentir qualquer cheiro. Deve cheirar a hospital, esse lugar. Meu corpo está gélido e me encontro impaciente pela dor de cabeça que me aperta o pensamento, então me chamam de volta à sala cinco e vejo que meu amigo está deitado em uma maca. Sento-me ao seu lado por algum tempo até que ele acorda com olhos vermelhos e balbucia histórias sobre a universidade, os políticos e um verão que não recordo qual é, e fala algo relacionado a estar o ser humano preso em suas próprias convenções e assim tornarmo-nos todos escravos de nós, uns dos outros e de nós mesmos, e vivermos clamando a liberdade enquanto escondemos nossos rostos de sua certeza e assim a liberdade nunca é uma certeza. É o que ele me diz e eu não fico mais surpresa pelos rumos que minha manhã toma pois já sei de seu propósito. Deixo o hospital como se deixasse a festa de ontem, simpática e embriagada, para um almoço num pátio esfumaçado e falamos de amor e também de fumaça. Chego em casa com os sapatos molhados. Deve chover, então, e estou dilareçada pela chuva e me alivia estar exausta e ter os olhos ardendo por que o sono há de vir melhor nessas condições, mesmo o quarto estando revirado e ainda cheio de pó. Não encontro dona Nêca mas juro tê-la visto hoje mesmo, provavelmente fora embora devido a algum imprevisto, talvez algum amigo tenha lhe telefonado e pedido companhia até um hospital esverdeado, mas ela esteve aqui pois a cama ainda está quente e só havia de ser ela a cuidar de mim. Pena não ter tido tempo de limpar o pó, eu já começo a me sentir mal.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ainda de manhã

Durmo profundamente quando o telefone toca uma unica vez, mas suficiente para me despertar as idéias. Fato é que sei de minhas idéias estarem também despertas durante o sono e por essa certeza já não sei se realmente acordo. Sei de o telefone tocar e de uma cachoeira de idéias adentrar-me o cérebro, ou está ela saindo de mim. A diferença passa a me importar muito, gostaria de distinguir com clareza quando as idéias vem de fora e quando são genuinamente minhas, e se alguma vez já foram genuinamente minhas e se algum de nós tem idéias genuínas. Talvez as percepções externas gerem as idéias de dentro. É isso e sinto alívio em saber que é isso. Pego um papel e faço anotações por sentir que serão importantes, noutra hora. Levo mais de uma hora procurando a origem dos meus pensamentos e tudo isso pelo maldito toque de telefone que penetra no campo de idéias despertas de quando durmo. Sinto-me pregada; partes se distorcem e outras se esclarecem e não há nada o que fazer quando algo lhe desperta o sono. Ou é isso, ou é uma peça dos sonhos.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Sábios mosquitos

Agora a chuva me atrapalha em trabalhar. Deveria acontecer o contrário, como sempre o é, e eu deveria devorar livros e fazer anotações ao tempo em que os pingos caem, mas há trovões lá fora e, se troveja, eu bocejo. Tenho ao lado a bíblia dos céticos, meu fumo e uma caneca vazia. Os mosquitos abrigam-se do frio em meus pés, que já estão ardentes e vermelhos das mordidas. Sou agora um mosquito. Tão fácil ser um pequeno arteiro, adentrar a casa alheia, zumbir no centro do cérebro de alguém e furar-lhe os pés, avançar ao último cômodo e encontrar uma moça desnuda roçando-se em lençóis macios, recostar sobre seu corpo quente, tomar-se inteiro de fina pele feminina, sugar seu sangue e levantar vôo. Se morri, morri e é só; morri uma morte bonita, de suave tapa de mulher em êxtase.

Alina Reyes

Acordo e já é uma da tarde. Dormi lendo o diário de Reyes, essa é minha última lembrança. Não sei ao certo que horas eram, tampouco recordo a atividade de antes do livro. Mas acordo e já é uma da tarde, o que me permite arriscar que dormi por no mínimo dez horas. Sem interrupção. Tenho os cabelos curtos e quase que totalmente louros. Estou bonita e sou o centro das atenções da festa, como sempre o sou aqui. Uma moça está em uma roda de instrumentistas, fala alto e tem os cabelos desgrenhados. Meus olhos se tomam de injúria. Parece que fiz amor com um desconhecido. Mas não deveria ser desconhecido, por que fiz amor e sei que fiz amor porque sinto isso por todo o meu corpo e também em minha alma, pelo algo de mais verdadeiro que trago em mim. Ouço suas palavras sujas e febris e me indago se me ama. Agora, sei que não é um desconhecido. Meus braços e pernas doem e meus cabelos permanecem intactos. Olho para meu reflexo: estou realmente bonita e de certo melhor do que estive com o último corte. As crises de insônia vem cedendo espaço a longas e profundas noites de sono, muito mais longas do que eu gostaria, de fato. Preciso ir a farmácia, já não tenho medicamento suficiente na maleta verde; é necessário respirar. As alergias têm me tomado o ânimo, pode-se dever a isso o sono alterado, mas a verdade é que transferi as preocupações insônes para dentro de meus sonhos. Ainda tenho o projeto e é preciso correr contra o tempo para que o tempo perdido não me volte a tomar o sono. Ao mesmo tempo, quanto mais sono tenho, mais tempo perco. E esse tempo perdido virá, mais tarde, a tomar-me o sono. Amigos me cumprimentam e indagam sobre o projeto, do qual não consigo me recordar e faço todo o esforço que posso para extrair de dentro qualquer informação que satisfaça os rostos já enaltecidos de todos eles. Os músicos se aproximam de nossa roda. Sei que hão de terminar a noite ali, ao lado dos eloquentes esquecidos, do trágico da leveza, dos heróicos vilões dos livros, e sei de nos sentirmos assim porque me ardem os olhos. Não me recordo do rosto do moço mas já o amo por inteiro e estará ele ali, em algum lugar da festa que deve ser minha. Definitivamente, conheço-o. Adormeço na sacada mas a música não me atrapalha o sono, e nada mais atrapalha o sono além de fios dourados batendo em minha boca.