Comecei a ler o livro do Thiago que Luciana me emprestou porque eu trabalhava enquanto o lançamento acontecia e não pude comprar o meu, daí que agora eu preciso ter o meu livro do Thiago, uma pessoa dessas palpáveis (ainda que não me seja tanto) que tem a sua imagem de algumas coisas verbalizada e impressa em grande escala, que sonho o meu. Melhor pensar/dizer é que ele tem as suas palavras de algumas coisas saltando em imagens impressas em grande escala cerebral ou sei lá mais o quê é que se deve pensar/dizer dos livros dos outros - dos livros, só, que eu mesma não tenho sequer um livro, e vou ter o quê? Que sonho o meu, que posso muito bem terminar de ler e devolver para Luciana. Não vou ficar com o livro de uma amiga que eu sei de depois reclamarem até o fim da amizade sobre essa pequena peça que pregamos quase sem querer, mas querer o meu próprio exemplar dele é só porque meu filho, e a única quase certeza já nesse ponto é que um filho existe na ideia e agora nas palavras, e se existe assim, existe e existirá quem sabe em sua forma física e gritante e descobridora do mundo. Meu filho há de querer ler o livro de um amigo da mãe ou não, mas topado o desafio irá sair criando buracos pelas paredes e eu gosto de filhos e gosto de buracos. Gosto de dar ideias e de gente que dá ideias e escreve ideias e desenha ideias esburacadas pelas paredes do apartamento recém mobiliado. Da casa, por ser possível imaginar as coisas da maneira que eu quiser. Isso sim, isso sempre é possível e é o que salva e o que condena as pessoas. Sinto vontade de gravar o volume assustador de pensamentos que me protegem da chuva, os olhos negros de estar essa mulher que se maquia para a noite e de repente a noite vira dia e está chovendo e eu ando pensando muito, molhada e com essas manias esquisitas. Gritar no telefone não é das ações mais distintas do homem. Até parece que hoje em dia eu tenho de me desapontar com tudo e com todos, e é quando me escorrego na conclusão de que quem está desapontado, desapontado ponto, não poderia mesmo achar graça nas adversidades banais da vida e tem a obrigação de acabar esmigalhado dentro de um fio de telefone: gralhas tristes é o que somos. Magoar a si e aos outros também não deve enobrecer - aí me confundo. Mas não sou nobre e nem nada, nem pobre e nem rica e nem feliz e nem triste, tente alguém um dia me dizer então quem sou; grandes chances de acabar em bofetada. Nem um ano ainda, alguns meses na cidade chuvosa, a geladeira cheia, a mesa vazia e outros duzentos complexos que psicologia nenhuma irá me explicar, que eu ontem mesmo deixei a terapia. "Trabalhar é um santo remédio" é das maiores mentiras dos seres que sentem, remédio para mim tem bula e nesse ponto me pareço com a mãe da personagem do livro, no gosto medicinal e no desgosto às anomalias, tirando que eu gosto tanto delas que vivo anomálica. Acabo de inventar uma palavra. Inventar um livro é outra história, difícil tarefa a de criar um amontoado de coisas suas quando se sabe de nada ou quase nada ser seu. Com o filho eu dou um jeito, já está projetado e de projetos e buracos em paredes pode se formar um futuro arquiteto, "Parabéns! Nós te amamos muito!", amamos muito, amamos!, muito!, quem é que somos nós? A chuva costuma ser ensurdecedora de dentro para fora, cabeça surda e eco brando até meus olhos atravessarem a paleta do arco-íris, não sei porque eu tentei endireitar meus olhos. Não fossem pelos médicos me dizendo que agora eu enxergo bem, a vista segue turva. Toca meu telefone: fui demitida. Como assim? Assim assado, porque é preciso ser e eu sou, sei do nome que meus pais me deram, nome-sobrenome-casa-quintal-piscina-cesta-de-basquete-Primaveras-mesa-de-madeira-biblioteca; será que um dia tenho uma biblioteca no quintal? Gostei muito também de o livro ter o formato de um Moleskine. É cool, como costumam dizer nesse ano de dois mil e doze.
debaixo do pano
quarta-feira, 6 de junho de 2012
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Muito antes do sol
Sei de o som me deixar fissurada no passado antes mesmo de ser possível tomar mais um trago, eu que nem mesmo virei três drinques. Coquetéis, uma das minhas coisas de outros tempos, de festas e as velhas casas de amigos que me visitaram de maneira tão frequente de modo que hoje em dia eu mal percebo o que se passou sem a devida intenção. Era só para ser um momento meu e menos complicado do que outros momentos, mas o velho mocinho-bandido saiu tão livre quanto baleado e é impossível não sentir, ainda hoje, ainda mais hoje. Como se fosse necessário que entre a degradação do amor todos desempenhassem todos os papéis, e tantas coisas da família e dos próximos, os Mariatti que sofreram a perda da menina quando a gente era ainda bem criança e bem insensível. Uma hora é notável que a cidade lhe percebe e seu ego e o seu amor lhe perseguem, seu ódio sempre à frente, seus demônios sempre dentro de você.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Pequeno relato do por quê ela não precisa de mim.
Paro a moto no cruzamento quando a vejo ao lado, os cabelos querendo se soltar do coque e a parte esquerda da face já avermelhada da vida na cidade e de ficar dentro de um carro para lá e cá procurando resolver o que não se resolve, algo maior do que parecia ser dentro daquele rosto pequeno e agitado; ela é suor e chão e tão menina quanto as que guardam os segredos mais densos enrolados nos caracóis. Naturalmente, não me nota por perto ou finge não me ver enquanto fantasia suspiros e tremores na tarde quente. Traga o cigarro devagar e aquele cheiro falso de menta a invadir o meu peito no tempo em que uma canção dos Beatles sai da boca de Caetano até que eu não consigo mais respirar e ela toma todo o meu mundo só com o cair de ombro, um ombrinho branco e preguiçoso de quem quer deitar na rede e ser a musa dos loucos pelos sete cantos em que passar antes mesmo de virar mulher, que em qualquer outro dia da vida eu passaria reto a uma cara bonita e no entanto ela ferve o asfalto sem dó do meu coração, ainda que tem uns olhos que não se fazem entender para onde vão, daqueles nos quais você não vê nada e de quem chora por ninguém, que nem na canção.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Qualquer alucinação para espantar o calor da sala
Eu falei para deus que eu não queria ter vindo parar aqui e que outra dessas noites de jantares pró convívio social que não me agradam em nada sequer na comida não conseguiria levar a diante, mas vim porque sempre me mandam comparecer a essas danças de mesas, essas malditas danças de mesas. Fico calada durante a ceia e não haveria nada que me descalasse a boca senão a menina do canto a comer um prato recheado com seus próprios cabelos. A menina quase careca já, no mundo em que se procura pelo Procon por conta do caso de um pequeno fio de cabelo incrustado em uma pizza de anchovas devora um spaghetti de mechas longas e negras. Sem tornar aos lados, postura ereta, cintura fina de dieta de fios e olhos salientes voltados ao prato dourado, o mesmo prato dourado de sempre e ela ainda permanece pura na certeza da tarefa que realiza e mesmo em sua beleza e é penetrantemente belo observar a pequena comedora de cabelos, princesa subversiva dos banquetes: a cena é absoluta. Eu já me sinto preenchida por suas madeixas e sonho alto queimando as mãos aos penetrar na mesma casa em dois momentos diferentes, seus moradores em transformação e minha espinha gelada pelas línguas que me tocaram as costas em um verão e no outro inverno, o quarto e a sala que eram abrigos da solidão e da estupidez do mundo, tudo tão puro e tão natural. A casa leva o mesmo nome mas um momento não se parece em nada ao segundo quando percebo que todos mudaram seus rostos e que sinto repulsa ao sofá marrom por também me causar estranheza e apenas eu sou ligeiramente a mesma, ligeiramente e porque ainda estou presa em uma cidade sem relógios. Voo até o último homem do último quarto e quando volto a mim o prato da moça está por acabar e sei que irei questioná-la não a opção mas sim o que irá fazer quando todos os seus cabelos já tiverem sido banqueteados e sei que ela me dirá que quando esse momento chegar, irá comer a cara.
domingo, 31 de julho de 2011
Outra noite no baile
Bom mesmo é permanecer nesse palco suspenso no qual não conto as horas nem as viradas do tempo, e não conto os dias e o que há para se fazer e o que não se deve fazer e nem mesmo conto o que quero fazer, não conto amores antigos, castigos, medos e descrenças e doenças e tampouco conto os grãos de arroz do meu almoço ou os vincos da parede vermelha, não conto quantas vezes vou para a frente do espelho nem quantos homens me derretem a camisa com os olhos e também não conto problema, dinheiro, dilema e não conto nem poema, não conto os dias sem gozo e nem meus pares de sapatos, não conto vantagem nem conto ponto nem conto caso nem conto contigo nem conto do vigário nem conto de fadas, não conto palavras, números e placas e luzes alucinógenas e outras drogas, nem cigarras ou fileiras de formigas e não conto pingos de chuva nem amendoim dentro do saco, não conto um só demônio e santo também não conto e nem mesmo conto como pessoa por que aqui nada se conta e apenas sei dançar.
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