quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sobre a conversa com um velho amigo

Apática. É outro inverno e certamente o dia mais frio que tivemos no ano. Dona Nêca limpa a casa que agora tem sua metade organizada e a outra parte cheia de pó e ácaros, logo os ácaros que me matam pouco a pouco. Já não tenho o ânimo de antes e me sinto doente, a festa de ontem me pesa pelo corpo, me fura a garganta e tranca as narinas; sem festa morro de qualquer forma e então me sinto prática ao ainda considerar propostas de madrugadas animadas. Gustavo dorme feito pedra, busco um copo de água e vejo desconhecidos pela casa. Levo um antigo amigo ao hospital. Estranho, a princípio, a paisagem: o céu acinzentado, o vento forte e o frio da manhã me fazem pensar que nunca estive aqui antes, ainda que conheça todos os caminhos que levam ao triste edifício. Entro, passo por corredores e escadas e chego a sala cinco do segundo andar como me foi orientado fazer. Uma enfermeira sorridente acompanha meu amigo e insiste chamá-lo por outro nome. Tenho vontade de lhe sussurrar seu nome verdadeiro a fim de evitar qualquer constrangimento por parte de meu companheiro mas minha voz não sai e não consigo sentir qualquer cheiro. Deve cheirar a hospital, esse lugar. Meu corpo está gélido e me encontro impaciente pela dor de cabeça que me aperta o pensamento, então me chamam de volta à sala cinco e vejo que meu amigo está deitado em uma maca. Sento-me ao seu lado por algum tempo até que ele acorda com olhos vermelhos e balbucia histórias sobre a universidade, os políticos e um verão que não recordo qual é, e fala algo relacionado a estar o ser humano preso em suas próprias convenções e assim tornarmo-nos todos escravos de nós, uns dos outros e de nós mesmos, e vivermos clamando a liberdade enquanto escondemos nossos rostos de sua certeza e assim a liberdade nunca é uma certeza. É o que ele me diz e eu não fico mais surpresa pelos rumos que minha manhã toma pois já sei de seu propósito. Deixo o hospital como se deixasse a festa de ontem, simpática e embriagada, para um almoço num pátio esfumaçado e falamos de amor e também de fumaça. Chego em casa com os sapatos molhados. Deve chover, então, e estou dilareçada pela chuva e me alivia estar exausta e ter os olhos ardendo por que o sono há de vir melhor nessas condições, mesmo o quarto estando revirado e ainda cheio de pó. Não encontro dona Nêca mas juro tê-la visto hoje mesmo, provavelmente fora embora devido a algum imprevisto, talvez algum amigo tenha lhe telefonado e pedido companhia até um hospital esverdeado, mas ela esteve aqui pois a cama ainda está quente e só havia de ser ela a cuidar de mim. Pena não ter tido tempo de limpar o pó, eu já começo a me sentir mal.

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