Eu falei para deus que eu não queria ter vindo parar aqui e que outra dessas noites de jantares pró convívio social que não me agradam em nada sequer na comida não conseguiria levar a diante, mas vim porque sempre me mandam comparecer a essas danças de mesas, essas malditas danças de mesas. Fico calada durante a ceia e não haveria nada que me descalasse a boca senão a menina do canto a comer um prato recheado com seus próprios cabelos. A menina quase careca já, no mundo em que se procura pelo Procon por conta do caso de um pequeno fio de cabelo incrustado em uma pizza de anchovas devora um spaghetti de mechas longas e negras. Sem tornar aos lados, postura ereta, cintura fina de dieta de fios e olhos salientes voltados ao prato dourado, o mesmo prato dourado de sempre e ela ainda permanece pura na certeza da tarefa que realiza e mesmo em sua beleza e é penetrantemente belo observar a pequena comedora de cabelos, princesa subversiva dos banquetes: a cena é absoluta. Eu já me sinto preenchida por suas madeixas e sonho alto queimando as mãos aos penetrar na mesma casa em dois momentos diferentes, seus moradores em transformação e minha espinha gelada pelas línguas que me tocaram as costas em um verão e no outro inverno, o quarto e a sala que eram abrigos da solidão e da estupidez do mundo, tudo tão puro e tão natural. A casa leva o mesmo nome mas um momento não se parece em nada ao segundo quando percebo que todos mudaram seus rostos e que sinto repulsa ao sofá marrom por também me causar estranheza e apenas eu sou ligeiramente a mesma, ligeiramente e porque ainda estou presa em uma cidade sem relógios. Voo até o último homem do último quarto e quando volto a mim o prato da moça está por acabar e sei que irei questioná-la não a opção mas sim o que irá fazer quando todos os seus cabelos já tiverem sido banqueteados e sei que ela me dirá que quando esse momento chegar, irá comer a cara.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
domingo, 31 de julho de 2011
Outra noite no baile
Bom mesmo é permanecer nesse palco suspenso no qual não conto as horas nem as viradas do tempo, e não conto os dias e o que há para se fazer e o que não se deve fazer e nem mesmo conto o que quero fazer, não conto amores antigos, castigos, medos e descrenças e doenças e tampouco conto os grãos de arroz do meu almoço ou os vincos da parede vermelha, não conto quantas vezes vou para a frente do espelho nem quantos homens me derretem a camisa com os olhos e também não conto problema, dinheiro, dilema e não conto nem poema, não conto os dias sem gozo e nem meus pares de sapatos, não conto vantagem nem conto ponto nem conto caso nem conto contigo nem conto do vigário nem conto de fadas, não conto palavras, números e placas e luzes alucinógenas e outras drogas, nem cigarras ou fileiras de formigas e não conto pingos de chuva nem amendoim dentro do saco, não conto um só demônio e santo também não conto e nem mesmo conto como pessoa por que aqui nada se conta e apenas sei dançar.
domingo, 17 de julho de 2011
Aglutinação
Pela tela do cinema vejo misturar-se a seu rosto o meu, as palavras sob nossas cabeças criando novas estruturas e a figura formada a imperar autônoma, se quem fomos já não importa.
sábado, 9 de julho de 2011
O gato na sacada
Ele olha para o infinito, mas em meus sonhos me olhava e me contava poemas em intermináveis cartas que atravessaram os anos. Por ver assim o gato percebo que há muito as cartas se foram e ele está velho como eu envelheci e como Bruna teve filhos e Rafael se casou. Outros tempos, nalgum ponto do que fui eu ele esteve a me observar da sacada e então a beijar-me os joelhos e pedir por abrigo no avesso de minha saia, e sou eu a filha de Klaus Kinski apaixonada por um felino, e como ela o guardo em segredo porque pessoa alguma haveria de entender meu amor por um gato e tampouco qualquer ser da espécie aprovaria o romance. Se parece na tarde de hoje apenas com um animal manso numa antiga sacada de uma rua de São Paulo desfilando imóvel sua sutileza, o guardião do apartamento, dos discos e do piano e aquele cheiro de pão e erva a invadir o mundo, ele ali posando para minhas recordações, já tão alvo e tão denso. Os gato têm ainda alguma carência e o roçar e postar de corpos como cinturões felpudos nos colos de suas donas, nem que tenham todos os mistérios do cosmo guardados em caixas prateadas são sinceros e tolos sobre o ventre de uma mulher. Penso em como me fiz querer o animal que é poeta mas se afirma turista e percebo que se trata de uma dessas minhas histórias sem direções e que seria meu sentimento completamente criminoso não fosse sonho (e não estivesse ele agora contando os azulejos da sala e salpicando frases n'outras línguas). Do vidro de uma loja noto minhas sobrancelhas malfeitas, é certo que tenho deixado meus caprichos de lado e viajado o mundo enquanto provo banquetes e fervo a alma por toda minha necessidade guardada há tanto, havia então de chegar à velha rua na cidade de São Paulo para vê-lo pintar em meu coração seus verbetes graciosos, tão quentes e graciosos. Parentes não moram distante daqui e jamais aceitariam um romance que não existe nem nunca existiu senão em mim e em seus pêlos, na língua cancioneira e no segredo de toda uma história, hay que amar en secreto, hei de me entreter com qualquer coisa por esses dias como o tenho feito e terei de ver maldade onde não há, nas palavras de Cecília.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Confusa linha lateral
Vomito em meu próprio colo. Sinto a ânsia da sala cheia, o medo do desconhecido, a vida dentro da vida me bate à barriga e me questiono por qual modo uma se encaixa noutra. Uma vida em outra vida. Alguém me pergunta da viagem ao Uruguai e fico preguiçosa em contar como a arquitetura das cidades havia me impressionado e quão bonitas eram as pequenas faces sorridentes nas praças, então permaneço calada e enojada do cheiro do ar. Por sorte acordo cedo e mal tenho tempo de completar a noite. Eu que fico tonta ao balançar das ondas vou indo de mãos ao ventre e tenho a forte sensação de que sonho e realidade constituem uma só experiência.
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